quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Carta de despedida


Não sei o que é liberdade. Jamais a conheci. E se porventura em algum momento ela passou por mim, não a percebi. Faço uma pausa para dizer que estou mentindo. Sempre invejei a forma como você se movia. Sempre invejei tua liberdade. Por desconhecer isso que chamam de liberdade – e me deixa tão angustiada – passei a acreditar que eu só a conheceria me fazendo prisioneira da tua liberdade. A tua liberdade me libertava. A menina assustada e febril vestia seu vestido mais bonito para saborear a delícia de ser despida no meio da noite dos olhos de menino – escondidos atrás dos olhos castanhos escuros de homem seguro. Nua e insegura a minha solidão toda crua queria ser alimento para tua fome.

Desperdiçada.

Agora nós estamos dançando. Estou livre da tua liberdade. Você sorri por acreditar na minha fé cega em seu amor que jamais foi capaz de transpor as barreiras do seu próprio corpo. Dançamos. Eu com minha solidão – maculada. Você com a tua solidão – intacta. Amar é não ficar intacto, grito. Mas a música está muito alta. Não podes me ouvir. Nunca fostes capaz de me ouvir. Estamos dançando sem nos tocarmos. Estamos no meio dos escombros. E não há nada que possa ser reconstruído. (A não ser meus próprios pedaços). Agora quero apenas me entregar ao prazer dessa última dança. Ainda que estejamos tão longe. Ainda que não possas me ouvir. Ainda que possas ver apenas o que sobrou de mim. Do meu vestido só resta os trapos. Entrego-me ao prazer dessa última dança. A dança da despedida.

Adeus, amor.

P.S.: Estou ferida. Mas não choro mais. Nem sempre o passado cicatriza.

domingo, 27 de setembro de 2015

Lápide


jaz no meu corpo a tua alma
jaz na minha pele o teu toque
jaz no meu toque a maldita textura da tua pele
jaz nos meus olhos lembranças tuas
jaz na minha língua o gosto
das tuas virilhas escorrendo
gota a gota penetrando por entre
teus pelos me rasgam as coxas
brancas e quentes
quente engulo toda tua frieza
e não, não consegues apagar
o fogo a brasa a sede a fome

temes que eu – na minha pequenez
– te corte entre os dentes e te engula
todo perdido no labirinto escondido
em minha alma
temes as correntes construídas
por suas próprias mãos e queres
a liberdade que há entre o sim
e o não

epílogo
: o amor é morte
e eu te matei
em mim

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Manequins


[esqueci de crescer - por dentro. esqueci também quantos nomes já tive. mas não esqueci que eu vivia sozinho, medroso e assustado no canto da sala, do quarto, da vida. vez em quando nem os braços mais fortes são capazes de me livrar do meu desamparo e nem proteger minha inevitável desproteção. acho que nunca tive um peito de ferro. o amor não sobreviveria. talvez nem eu conseguiria sobreviver sem amor. ainda que adormecido embaixo dos delicados detalhes do cotidiano o amor continua ali, vivo, respirando. meu peito sempre foi de carne, sempre sangrou, sempre doeu. e, quando não doía, sentia medo e ficava assustado e até um pouco desesperado. quando a dor faz silêncio, não sei se curou ou se morri. nunca soube lidar com uma existência indolor. mas não sou masoquista. só preciso me sentir vivo. e eu vivia ainda que sempre estivesse esgueirando-me pelas beiradas da vida pra ninguém perceber que algo eu escondia. não havia nada a esconder, mas eu escondia até de mim. lembro-me que confundia manequins com pessoas. estendia a mão para eles e os cumprimentava na esperança de que me respondessem. manequins, muitas vezes, são mais vivos que pessoas. e pessoas parecem ser mais sem vida do que manequins. meu olhar varre todos os cantos numa rua cheia. pessoas andam freneticamente de um lado ao outro, atravessando no sinal vermelho, esbarrando no ombro alheio, desviando com astúcia dos que só querem fazer algumas perguntas. meu olhar não encontra outro olhar. meu olhar se afoga nesse mar de almas apressadas. e a pressa e o descuido e o medo de ter sua solidão violada fizeram das pessoas manequins. e agora eu, que confundia manequins com pessoas, confundo pessoas com manequins. e estou tentando, quase inutilmente, encontrar um resquício de vida embaixo de cada manequim. que, na verdade, são pessoas que nem olham pra mim]

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Copo de vidro


Desastrada. O próprio desastre. Destrutiva. Autodestrutiva. Sou o pé sobre o copo de vidro. Sou o copo de vidro suportando o peso do pé descuidado. Cuidado. Por que você se aproxima tanto mesmo sabendo dos riscos? Sou a força que pressiona o copo contra o chão. Sou o estalar do copo de vidro se quebrando contra o pé. O meu pé de menina descuidada e desastrada. Sem cuidado cirúrgico. Arranco a máscara que recobre verdades adormecidas. Sou o corte no pé. Sou o sangue jorrando copiosamente. Vou morrer sangrando antes que me suturem. Você é desastrada, menina. Pra onde estava olhando? Os olhos da minha mãe diziam apavorados com tanto sangue. Mamãe, não sei pra onde eu estava olhando. Nem ao menos sei se estava olhando. Vez em quando parece que estou imersa no nada e tudo que me cerca parece não existir. Só meu corpo no meio do nada. Em alguns instantes angustiantes sinto até que minha existência se misturou ao nada. Perco o contorno, as bordas de mim são costuradas no vazio e o vazio me abraça com amor e ódio.
O pronto socorro está quase fechando. Mamãe não aguenta mais ver tanto sangue. Mamãe tem medo de me perder. Mamãe quer me suturar sem agulhas e linhas. Sou o desespero da minha mãe querendo me salvar. Sou o sangue que não obedece e não para de escorrer. Sou os panos tentando secar, tentando cobrir o corte no pé, tentando estancar. Não estanca. E o pronto socorre não me socorre. Estou na maca. Sou a própria maca suportando o peso do corpo que geme e não grita. O corpo que se contorce como uma parturiente, mas que jamais vai parir. Sou o próprio corpo que padece na brevidade das horas. Parece a eternidade acontecendo quando as mãos de alguém que não conheço se misturam com o olhar de mamãe se compadecendo da minha dor. Sou a dor que não passa. Viver é trazer um corte no âmago, sangrar copiosamente, hemorragia que não estanca, tudo sobre panos, escondido. Os olhos de mamãe são capazes de rasgar os véus que escondem minha dor. Minha dor dói nos olhos dela. Os olhos dela doem em mim. A crueza do amor se expõe quando duas dores doem juntas. Sem anestesia. É o pedido de socorro e a ânsia de socorrer.
Sinto pontadas em meu pé ferido. A estranha está tentando amenizar minha dor. Está tentando me anestesiar. Ela deveria me dar algo pra beber. Deveria me deixar bêbada, me entorpecer. Não, sou nova demais. Mamãe nem ao menos me deixava tocar numa taça de vinho. Escuto Cazuza sussurrar em meu ouvido: “nem dopante me dopa a vida me endoida nem dopante me dopa a vida me endoida a vida me endoida”. Alguém aí, me dê algo pra beber. Preciso me dopar pra dor passar. Ou ao menos amenizar. Silêncio. Ah, como sou tagarela. Mamãe sempre teve que me mandar calar não só a boca como também os cotovelos. Falo pelos cotovelos e pelos poros. Não, você nunca soube, mamãe. Mas eu falo por todos os poros. Eu transpiro palavras. Falar é me manter ancorada aqui. Palavras dão consistência ao meu corpo. Palavras dão consistência à minha existência. Mamãe não quer me perder. Eu não quero me perder. Estou sentindo as dores do parto mesmo sem estar grávida. Minto. Estou grávida sim. A vida me fez gestar minha própria alma. Agora sei que viver é estar em constante trabalho de parto. Como dói, mamãe. Minha alma quer me dizer algo. A dor fala sem palavras, sem emitir sons.
E os olhos de mamãe me chamando. E os olhos de mamãe gritando. “Volta para o meu útero que eu te protejo de tudo. Protejo-te dos copos de vidro. Protejo-te dos cortes que a vida faz. Protejo-te de você mesma. Regresse para dentro de mim”. Quisera eu que isso fosse possível, mamãe. A vida fere e não sutura. A vida não estanca mesmo quando meu sangue para de jorrar. Quero gritar. Quero dizer que não quero mais. É tão paradoxo o meu querer. Quero me livrar desse infortúnio, mas não me sei longe dele. As mãos estranhas cessam de me tocar e suturar meu pé. O sangue tinge os lençóis sobre a maca. Mamãe não está mais pálida. Eu não estou mais chorosa. A estranha diz que posso ir embora. Acabou. Mamãe me pega no colo. Vou embora. Suturada. Mas a vida continua sangrando. E que ela não entanque.

terça-feira, 10 de março de 2015

A (nossa) dança


Dance. Dance comigo mais uma vez. Você me ama? Dance comigo. Sabes das minhas vertigens e das minhas incontáveis quedas no abismo de mim. Sim, você me ama. Você tirou minhas dores pra dançar e agora meu peito se esvaziou de toda essa urgência angustiante que é querer. Continuo querendo. Mas quero de uma forma quase inaudível. Você se inclina sobre mim. Espera, acho que vou cair de novo. Você me segura. Eu não te ouvi eu não te ouvi fale de novo fale só mais uma vez. Você não se cansa de tentar saber o que quero o que eu disse o que eu sinto. Escapou. Escapei. Não sei voltar. Não quero voltar. Você pede mais uma vez que eu repita o que eu disse. Inaudível até pra mim. Vez em quando é melhor me abster de saber o que quero. Só preciso querer. Baixo ou alto. Quero. Isso não te basta. Você quer mais. Você quer o meu querer. Delicadamente você conduz meus passos para que eu não tropece em nossos medos e caia mais uma vez no abismo. Se eu cair, você cai junto? Amar é se lançar no abismo do outro mesmo sem saber se haverá salvação. Se eu cair, você me salva? Salva? Não responda. Recuso-me a saber de tudo. Saber tudo enjoa. O não-saber me faz mais humano, mais gente. Estou constantemente com essa ânsia de vômito misturada com essa fome de um pedaço do mundo misturada com esses desejos velados entre os lábios e os dentes misturada com nossos medos e nossas angústias. Queria vomitar. Temo vomitar e me tornar vazio do vazio. Temo os teus temores mesmo quando você não parece estar com medo. A dança continua. A música não finda. Não sei da finitude das coisas. Nunca quis saber. Apenas dance... comigo... agora...

sábado, 7 de março de 2015

Umbilical


O mundo pode acabar em água. O mundo pode acabar em fogo. Tanto faz. É tudo lá fora. O mundo desaba. Chove torrencialmente. O mundo está desabando lá fora. Nós estamos aqui dentro. Quatro paredes. Quatro olhos. Quatro mãos. O mundo se cala quando eu desabo a minha existência nos teus braços. O mundo não pesa mais quando a minha alma desagua nos teus lábios. Vejo-te sorver de mim. Deixe-me oco. Sou teu. Deixe-me vazio. Sou teu. Não sei me ser mais. O cordão umbilical, que prendia minha alma ao meu corpo, foi rompido. O meu parto íntimo. Pari a minha alma para dentro de ti. O gozo na dor de me libertar de mim. Deixa-me doer essas dores, amor. E as tuas mãos (ah, não afaste suas mãos de mim), e os teus dedos (não, não me prive do teu toque!), e a tua pele (me queira com ela me devore com ela me ame com ela), e os teus olhos (não esconda de mim com tuas pálpebras, corte-as se quiser)... e você, você me alimenta agora. A única distância que consigo suportar é a desse cordão umbilical entre nós. Entre a minha alma e a tua. Não me devolva o que já é teu. Sim, eu sou teu. Estou num limbo terrível. Entre a vida e a morte. O limbo é o teu toque. Se você não me toca, tudo fica pesado demais e não posso respirar e não posso sentir a vida pulsando em minhas vísceras, em minha carne, em meu peito. Se você me toca, respiro, posso viver e sentir a vida jorrando pelas minhas artérias numa violência que me leva ao medo de ter minhas veias violentadas e meu coração esmagado. Você esmaga tudo em volta para que eu possa existir.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Meu último suspiro


Estou convencida. Sim, agora eu me convenci de que realmente sou louca. Ai de mim se não fosse assim, dessa forma, desse jeito estranho. A cada dia eu me causo mais estranheza. Essa minha pele, esse meu corpo, tudo está tão inconfortável e cansativo. Quisera eu que fosse possível arrancar essa pele com a mesma violência com que arrancas meu vestido. Eu quero me rasgar inteira. Essa sensação de afogamento não me deixa respirar tranquilamente. Sinto que meu corpo se tornou um reservatório sem ao menos um buraco capaz de fazer toda essa água vazar. É insuportável. Quero me livrar dessa quase-morte. Ou quero morrer logo d’uma vez. Porra, será que não posso simplesmente me deixar em paz? Sim, sou prisioneira e algoz de mim. Sou minha própria prisão. Desculpa, mas esse é o motivo pelo qual te sufoco tanto. Eu te sufoco para não ficar sufocada. Toda vez que me lanço feito uma louca, carente e sedenta, nos teus braços, é só essa minha necessidade de vomitar toda minha alma na tua boca. Encontrei uma forma de fazer meu corpo vazar um pouco desse líquido, tão denso, que quer roubar o sopro de vida que me restou. Minha boca na tua boca. O pecado e a redenção. A enferma e o remédio. Não se assuste, amor. Não corra mais de mim. Espera, pra onde você está indo? Espera só mais um pouco. Mas você sempre vai. Você sempre me deixa sem âncora, sem salvação. Talvez eu esteja mesmo errada. Quero apenas que você me salve daquilo que sou. Mas você só pode amenizar um pouco. Acredite em mim, eu te amo. E essa é a primeira vez que consigo dizer-te isso. E como dói dar vida àquilo que sentimos. Sentir me dói pra caralho. E estou exaurida, farta. Não quero mais sentir nem dizer nem gritar nem sussurrar no teu ouvido do meu querer da minha fome da minha sede nem deixar na tua pele vestígios dos meus lábios ou da minha língua nem sentir teu corpo desenhando e dando vida ao meu corpo pequeno de menina. Eu quero apenas dar meu último suspiro. Na tua boca.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Quase Clementine


Meu nome é corpo. Meu sobrenome é alma. Não há espaço que nos separe, não há vão e nem ao menos uma mão capaz de livrar meu corpo dessa marca. Estou condenada à minha alma. Mas não, não sou mais aquela menina que você comia todas as sextas no seu horário de almoço, dentro do quarto mais barato, mais sujo, mais escondido que havia naquela rua sem saída do centro de São Paulo. Ninguém poderia saber de nós. Mantínhamos o nosso segredo. Eu, sempre romântica – e iludida –, achava aquilo tão bonito. Vivia perdida em meu claustrofóbico mundo de que tudo fosse real. Mas, repito, não sou mais aquela menina. Aquela que era sua, aquela que se afogava no suor do seu corpo naquelas tardes quentes. Você me fodia como quem tem pressa. E medo. Você tinha medo de mim. Não me esqueci daquela mensagem em que você confessava. “Tenho medo de você, menina”. Só que meus olhos estavam sempre vedados. Você era a rua sem saída que eu nunca deveria ter visitado. O breu que eu nunca deveria ter permitido se aproximar. Eu apaguei a luz. Do quarto. Da alma. Estendi minha mão e deixei você me levar. Tanto fazia se você queria nesse ou naquele dia. Bastava que você quisesse. E eu comia. Comia cada pedaço das suas migalhas. Sempre tão frágil e indefesa eu sentia que a cada vez que você me apertava contra seu corpo eu ia me quebrar. Essa sensação era lancinante. E, todas as vezes que deixávamos aquele quarto, era como se minha alma estivesse se partindo aos pouquinhos. Eu estava condenada a morrer por dentro lentamente. Saber antecipadamente da minha morte, e negligenciar os sintomas, era assustador. Quanto mais destruída eu estava, mais eu queria essa destruição. É como beber veneno em pequenas doses. Tão clichê. Sempre fui assim. Essa menina cheia de clichês e frases bobas, soltas no ar. Meus pés não queriam tocar o chão. Meus pés só se moviam sobre seus pés. Seus pés queriam o fim de mim. Você queria acabar com tudo aquilo porque eu estava perdida demais – em você. Era o que você queria. O fim. E eu queria, assim como Clementine, esquecer. Queria o vazio e o esquecimento. Queria me afogar no nada. Até morrer. Não, não tentei me cortar e nem tomar remédios que antecipassem minha morte. Porque eu já estava morta. Meu corpo é sepultura de um amor que morreu. Queria esquecer do teu corpo nu ao lado meu corpo nu. Você com os olhos cerrados se afundando no prazer do corpo até chegar ao gozo. Eu, meio tímida, querendo sentir aquilo que você sentia, mas no teu corpo. Eu queria sentir nada em mim. Precisava sentir como você sentia. Qualquer coisa que eu sentisse seria inútil sentir sem você. Eu era corpo-e-alma. Você era só corpo. Eu fui alma no teu corpo. Você foi corpo no meu corpo. Você veio, me matou lentamente, depois foi embora. E nunca mais voltou.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Arrebentado


acordei no meio da noite
a noite me acordou ao meio
tanto faz
o que me fazia querer gritar
no meio da mudez de uma noite
escura e fria
era o meu desespero por poder
reconhecer – no meio da noite
e no meio de mim mesmo –
aquelas vozes que rasgavam
meus ouvidos
numa dor aguda e silenciosa
estou cortado, machucado, ferido
por essas vozes que ecoam no oco
são versos tecidos pela mão do impossível
são melodias compostas num instrumento
inexistente
são palavras ditas por lábios
secos e rachados como uma terra árida
feito ácido corroendo tudo por dentro
a palavra é veneno quando não dita
e a noite continua ao meio e continuo
ao meio
tentando me juntar pra não morrer
no meio, ao meio, na noite
mas não quero morrer inteiro e
me jogo, me lanço ao chão como
como um vaso arremessado
por mãos furiosas que desejam quebrar
tudo e todos na esperança de romper
a si mesmo
num momento de fúria
quebro-me
despedaço-me
esqueci de ser
inteiro.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Algemas


entre achados e perdidos
: eu me perco me escondo
finjo que não existo
além das margens
do imenso – e
insecável – mar da tua alma
: você
entre o sim e o não
um talvez que me lança
algemas inquebráveis
e eu cada vez mais enclausurado
não vejo
outra forma de ser
livre senão preso, atado.
não há liberdade
sendo livre.
sem saber nadar
sem saber viver
sem saber amar
sem saber
sem
repetições vazias esquecidas
de fazer rima
em meu peito há um imã
e agora há também
uma rima
que te atrai
e você se trai
nessas palavras tão mornas
sim, entre o quente e o frio:
você
morno você
quente e frio você essa mistura
que me dá náuseas.
e a minha garganta
latejando o gosto da bile
corroendo a mim a ti e todas
as feridas esquecidas
de doer.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Suja


cansada. fumei um dois três cigarros. não me importo com meus pulmões. eles que tentem me suportar agora e se empenhem em me manter viva por mais algumas décadas. eu não quero me livrar agora. quero ser a fumaça soprada por minha boca. o cigarro e eu somos um só agora. agora eu não mais me despeço. calo-me. quando me calo encho minha alma de calos. silenciar é viver dentro de um sapato apertado. meu corpo é apertado demais. colocaram-me - e agora é minha alma quem diz - no corpo errado. viver e tentar se encaixar dentro do próprio corpo. viver e tentar se encaixar no corpo de alguém. viver e fumar ao lado de alguém e esperar que esse alguém te fume uma duas três quatro... infinitas vezes até que você se consuma e suma do mundo e o mundo, que nunca soube da sua existência patética, jamais saiba que um dia você ousou tentar limpar uma sujeira que não pode ser limpa. estou me sujando toda tentando limpar a sujeira deles. e eu não preciso que ninguém mais saiba que existo. basta que você saiba. você não sabe que existo apesar de passar por mim todos os dias na mesma esquina, no mesmo horário, no mesmo desejo que se seca gota após gota por não haver uma boca que (me) beba. mesmo não sabendo de mim estamos no mesmo quarto, na mesma cama, cobertos pelos mesmos lençóis. escondidos do mundo. eu me escondo em você. você se esconde em seu próprio corpo. e de dentro do teu corpo eu apenas vejo o meu corpo. vazio. desabitado. antes que as paredes desabem sobre nossos corpos eu desabo a minha existência sobre a tua existência. que sejamos só destroços


[reticências]

sábado, 24 de maio de 2014

A pele e a navalha


a pele é a fantasia
da alma.
em sublime calma
teus dedos me rasgam de alto
a baixo.
embaixo dos teus dedos - ou
entre eles - há
uma navalha que satisfaz a
insanidade do meu desejo
dispo-me da minha própria pele.
preciso mostrar-te as vísceras, a carne,
o peito cheio de pus, o sangue
dou-te a beber de mim
você
se sacia na fonte que está
quase
secando.
teus olhos se apartam dessa terrível
visão.
a verdade do que sou (?)
te escureceu as pupilas.
queimaram-se - as duas - nas chamas
do meu desejo e
as minhas dores
foram sorvidas pelo oco espaço opaco
vazio
estamos separados entre a superfície
e
a fundura do sentir.
enquanto eu me afogo você
me observa distante longe alheio
bebo cada gota como quem está
num deserto há dias
o sol escaldante queimando a pele
queimando as próprias chamas
entre meus ossos você escondeu
a ânsia de uma procura por aquilo
que você nunca perdeu.
também eu me ocupo em tentar
me livrar do mundo e dos seus olhos
tentando
me engolir aos poucos em pequenas
mordidas e logo estará tudo - eu você e
o mundo -
acabado.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sacrifício


quatro olhos
uns gritando e outros
tentando escutar
quatro mãos
tentando tocar o intocável
quatro pernas
cruzando umas nas outras
tentando fazer
nó no corpo meu e o corpo teu.
quatro paredes e eu posso
sentir
o peso delas sobre nossos corpos
nenhum ruído rachadura nada
estremeceu. está pesado demais.
te vejo revirar de um lado
para o outro e eu ficando louco
e você não se importando nenhum
pouco é suficiente para que eu es-
corra entre as tuas virilhas.

rubro.

sangue cintilando as paredes
do quarto
sangue maculando o lençol
alvo
sangue meu sangue teu
nossos sangues se lavam
e se banham em si mesmos
não é homicídio
não foi suicídio
foi – e é – sacrifício
oferto-me.

eis-me corpo nu
eis-me alma crua
a frieza e a quietude das paredes
contemplam aquilo que
o mundo é incapaz
de conceber.

o gozo lava leva limpa.

eu me sepultei no teu corpo
e você dividiu a tua
sepultura.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Desisto de mim


conversa - em silêncio - com o
meu olhar?

mas você precisa
de palavras.

você sabe do que eu preciso.
mas não sabe
do que necessito.
sou alma, pele e necessidade.

por que você não me diz
logo
que me ama?

eu te amo?
não sei. desaprendi a nomear
meus sentimentos.
apenas sinto.
sentir me basta. e minto.
porque, sentir não me basta.
o meu sentir
precisa
deitar-se sobre o teu.
assim como a brancura
da minha pele
repousa
sobre a tua pele morena.
os lençóis contemplam
o belo contraste da nossa cor.
os lençóis nos escondem
do mundo
as paredes nos escondem
do mundo
e nada me esconde de você.
(e)s(t)ou desprotegida.

Maria, seja mais
clara.
preciso te compreender.

(você fechou olhos
a luz se apagou. não consigo
ser clara)
não, você não precisa
(me) compreender.
você só quer se livrar desse peso
que é ser amado por alguém.
se compreendo,
não sinto.
você quer
compreender pra não
sentir.

mas eu sinto...

(oco
sussurros
eco
silêncio)

desisto de mim.
mas não desisto de você.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Foda-se


O começo - quando te disse sim - foi o (meu) fim. Estranho, ou não, é isso. Sins que destroem tudo. Nãos que edificam. E eu não aprendi a lidar comigo e com esse excesso de sentir. Sinto além de mim, de ti e de todos. Estou cansado de habitar neste corpo. Este corpo se cansou de mim. Queria viver dentro do teu corpo só pra saber se a vida dói menos aí. Vez em quando parece que você é intocável e inalcançável. Você vê meus olhos despidos, mas não tem coragem de pular de cabeça na escuridão que há neles. Você não se perde em mim. Eu vivo perdido nesse labirinto. Você prefere viver confortavelmente dentro de você. A sua companhia é a mentira, a sujeira acumulada embaixo de um está-tudo-bem-amanhã-eu-resolvo. Você fede por dentro. Mas eu gosto do teu fedor. E te cheiro. E te cheiro. E te cheiro. E teu cheiro... ah, não (!) teu fedor não saí de mim. O que restou de nós – mesmo sabendo que esse 'nós' não existiu, mas existiram os nós que fiz em você – foi apenas o cheiro inebriante das tuas virilhas. Agora já não há mais nada intacto em mim. Está tudo sólido em ti. Porque, no fundo, você bem sabe que viver de mentiras é confortável. A verdade é um tapa na cara. Você não gosta de dor. Eu também não. Mas, ao contrário de você, não vivo em fuga e nem fico anestesiando. Deixo a dor doer. Deixo a ferida sangrar. Deixo os olhos abertos para minha alma (você) visitar. Que triste. Você está ocupado demais cuidando de tecer suas próprias fantasias. Dentro de você eu não caibo. O teu 'eu' ocupa todos os espaços. Seria claustrofóbico viver no teu corpo. É, já não quero mais o que eu queria. Já não sei mais o que querer. Não sei nem se querer é certo. Meus braços não suportam o peso desse cansaço. Foda-se. Você e o seu mundinho de certezas e racionalidades. Deixa eu me perder um pouco mais. Porque, pra você, tanto faz. Foda-se. Você e a tua incapacidade de tocar e se deixar tocar por alguém. Foda-se, já que não posso vomitar teus beijos e nem tua saliva. Foda-se, já que não posso me esconder dos teus olhos que ainda estão escancarados em minhas lembranças. É o verso mais bonito e mais sincero que já escrevi. Acredite. Porque dói. E a dor é tão pura e tão verdadeira. É a minha dor. A dor que você não quis acariciar e nem ao menos colocar pra dormir. Ausente-se mais... e, a cada instante, aumenta em mim a vontade de calar meus dedos até minhas palavras morrerem nesse abismo que há em meu peito. Sim, somos abismos. Mesmo sabendo disso, meus pés insistem em se aproximar. Perigo. O teus olhos me olharam sem olhar fundo e eu pude sentir o abismo me estendendo os braços. Convite mortal. Fui.
Morri.
E ainda não despertei. Deixa-me saborear esta morte. Engula qualquer doce mentira e acredite no que quiser acreditar. Estou degustando essas verdades amargas que a tua ausência me oferece. Parte, mas não me deixa partido, amor. É impossível. Eu sei. Já entendi. (C)alma, teu barulho não me deixa adormecer. Sinto minha alma secar aos poucos. A tua ausência fez de mim um deserto sem oásis. Você não chove mais. Estou despido. Só não me dispo da minha pele porque é impossível. Impossível é arrancar de mim essas marcas. Tuas coxas quentes aqueciam as minhas coxas – frias. Quando sinto que estou esfriando por dentro vou esgueirando pelas beiradas das lembranças até encontrar tuas coxas – quentes – outra vez.  Teus olhos mudos me olhavam por olhar. Mas me olhavam. Era o fio que me sustentava. Só que eles queriam nadar na superfície de mim. E como te pedir pra mergulhar em mim se você nem ao menos consegue mergulhar em si mesmo? Teus lábios sempre foram inacessíveis. Os meus sempre permaneceram nessa sede incurável. Meus lábios ficavam secos de tanto e ir vir pelo teu corpo. Sobre os lençóis da memória ainda me vejo tentando sorver um pouco de você... até que em um momento me afasto de tua pele e vejo sangue. Sim, o meu sangue tingindo tua pele morena. Quanto mais tentava te sorver, mais eu era sorvido por você. Quanto mais queria te beber, mais você me bebia sem saber. Talvez eu só esteja de ressaca de tanto te beber. Talvez eu só esteja seco de tanto ser bebido por você. Talvez eu só esteja querendo te fazer um pedido.
Volta e chove outra vez. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

(Você não) me vê


Você não me vê. Que merda! Eu Não me escondo Mais de você. Eu rasguei as cortinas, abri as janelas e as portas. Eu rasguei meu peito. Mas você não entra. Você sempre mantem uma distância de mim. Você fica na soleira da porta só me observando. Mas não entra. Você não entra. Entre nossos olhos eu criei uma ponte. O teu ego agradeceu. Não sou tão perigoso assim. Você nem olha pra mim. Você me enche de mil desculpas. Você vive no mundo da lua. E não há foguete que me leve até você. Entre nós não existe mais uma linha tênue. Entre nós há um abismo intransponível. Quanto mais te quero, mais você se vai. Quanto mais me aproximo, mais distante você fica. Você fingi não entender o que está escorrendo pelos meus dedos, meus olhos, minha boca, minhas feridas. Porra! Você me fere e tanto e não me cura. Aquele que faz a ferida deveria ser responsável por tratar dela até que ela se cure totalmente. Apesar de não acreditar na totalidade da cura de uma ferida. Minha alma é colecionadora de cicatriz. Cada uma carrega em si uma história, um olhar, uma presença e um tanto de ausência. Não, não me venha dizer que você gosta de mim ou que você me ama. Você ama apenas o amor que eu tenho por você. Nada mais que isso. O meu amor é o objeto de desejo do teu ego. Quanto mais te amo, mais inflamado o teu ego fica. Quero te habitar, mas não caibo dentro de você. Não há espaço pra ninguém mais. O teu ego ocupa todo o espaço que há. E não há mais nada que eu possa dizer ou fazer. Estou cansado. Minha alma carece de um porto que não seja mais inseguro. Minha pende. Minha alma. Minha. Não, estou mentindo. Tua. Minha alma é mais tua do que minha. Mas você não vê. Acorda. Ainda estou aqui. Minha droga, meu vício, meu precipício, minha redenção.

[respeite meu devaneio]

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O grito do meu silêncio


Sempre detestei essa ruindade que existe em mim. Sempre quis ter um coração bom. Sempre quis fazer o bem. Sempre quis ser bom. Sempre quis ajudar todo mundo. E sempre quis abraçar o mundo com meus braços que, infelizmente, não são de borracha. Mas sou ruim. Sou ruim por natureza. E direcionar meus olhos pra dentro e confidenciar essa verdade a mim mesmo, é fazer um tratado de paz com minhas infinitas imperfeições. Sempre quis tanto, mas tanto... que quase nada consegui fazer. Esse sentimento de impotência diante da dor do outro, me dói um bocado. A dor do outro, vez em quando, dói mais em mim do que a minha própria dor. É estranho. É raro. Porque parece que endureci um pouco. Ou não. Volto a dizer do que sempre detestei. Sempre detestei sentir a dureza do meu coração. Eu já me detestei por isso. Talvez eu nem tenha endurecido. Talvez tenha se formado apenas uma casca grossa sobre a ferida. Porém, logo alguém vem. Vem e esbarra justamente no local outrora ferido. A ferida toma seu lugar de honra. Sangra. Não, eu não endureci. O sangue escorre, e posso provar do gozo e da dor que se tem quando a vida insiste em pulsar em seu peito surrado pelos nãos, pelos olhos desviados, pelos braços cruzados, pelas batidas insistentes em portas que jamais se abriram, pelas idas e vindas do amor – ou das possibilidades dele. Eu já tive vontade de me arrancar de mim. Há dias em que eu não me suporto. Dormir? Tento, mas nem sempre resolve. Ainda não existe um remédio que me cure de ser. Ainda bem. Ou não. Porque há sempre uma possibilidade. A vida é uma incerteza. Mesmo que sejamos teimosos e tenhamos uma criança birrenta gritando ferozmente bem lá no fundo da alma: eu-quero-assim-do-meu-jeitinho ou eu-quero-agora. Mas que merda! Eu já sei que sou ruim. Eu já sei que há muitos cantos sujos em mim. Só quero um pouco de paz pra descansar essa existência. Não quero ser perfeito. Credo! Deve ser horrível ser perfeito. E deve ser mais horrível ainda esperar por alguém perfeito. É preciso fazer as pazes com nossa humanidade. Sempre me acumulo em mim. Sinto que estou prestes a explodir. Não fique tão perto. Pode ser perigoso. Não quero machucar ninguém. Não suporto quando minhas feridas ferem quem eu amo. E na tentativa de não ferir, acabo ferindo ainda mais. Por quê?! Por quê?! Diga-me. Estou cheio de interrogações. Mas não me venha com as tuas respostas pré-cozidas. Você me ajudaria muito mais se ficasse calado e me abraçasse forte. Isso. Abraça-me forte, porque quero fugir. Faz nó cego em mim. Dispenso os laços. Posso te fazer uma última confissão antes que você se canse dos meus excessos e exageros desmedidos? Posso? Fa(la)rei.  Queria regressar aos teus braços. Porque eles – só eles – se ajustavam às deformidades da minha alma. E são essas deformidades e essas imperfeições e essas falhas e essas dores que não me deixam esquecer o meu excesso de humanidade.

domingo, 11 de agosto de 2013

você


você
segurou minha mão.
e naquele
toque
eu te dizia apenas:
fique
mais um pouco.
ainda é cedo.
não confunda mais
o tempo
de fora
com o tempo
de dentro.
é cedo. é cedo. é cedo.
dentro de mim ainda é
manhã.
enquanto você anoitece,
eu ainda estou
(tentando) amanhecer.
podemos ficar.
só não posso te suplicar.
meus dedos
entrelaçados aos teus
são pedido, prece
e súplica.
mas
você se foi de mim.
e meus
pedaços
foram com você.
você
tentou se desfazer de mim,
mas ainda estou aí
grudado em tua pele.
colado em tua retina.
não precisa notar.
ainda estou.
em você!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Débil


Somos tão sós. Por mais que eu tente fazer nó em alguém, logo ele se desfaz. E a ausência me faz entender que eu sou o único que nunca vai embora de mim. Sim, é difícil aprender a conviver com os outros. Eu sei. Mas, difícil mesmo, é aprender a conviver comigo mesmo. O outro chega e logo se vai. Eu permaneço sempre aqui.
Sou tão insuportável. Sou tão azedo. Sou tão sensível. São tão cheio de excessos. Sou tão cheio de exageros. Sou tão doce que causo enjoo em almas que tentam experimentar de mim. Sou contradição. Sou sim e não (e talvez). Sou tanto, tanto, tanto... e acabo sempre me afogando em mim.
Onde estará minha salvação?
Por tanto tempo pensei que minha redenção estaria naqueles braços e minha esperança no verde daqueles olhos. Dissolveu. Assim como todas as minhas certezas. Eu estava em pé. Precisei cair. Eu estava inteiro. Precisei me despedaçar. Eu estava iluminado. Precisei me refugiar nas sombras. Aquele olhar me cegava. É, há olhares que ofuscam a verdade. Eu tentava encher aquele coração. Não era possível. Ele já estava cheio de si mesmo. Dentro dele só cabia o seu próprio ego. E eu era o responsável por acariciá-lo.
Minha alma pede caricias. Só que a ponte que nos ligava, quebrou. Nada mais concerta. Há estragos que não possuem reparo. Não quero reparar nada. Deixa tudo assim. Deixa você longe de mim. Deixa os teus olhos bem fechados. Deixa tuas palavras se perderem no vento. A culpa não é minha. A culpa não é sua e nem de ninguém. A culpa é do vento que te levou de mim. Escolhi pensar assim. Talvez seja uma forma de proteger das pontadas de dor em meu peito, toda vez que penso em cada gota de esperança que você bebeu de mim.
Estou tentando beber olhares. É inebriante bebê-los. Mas, infelizmente, as pessoas perderam o costume de olhar nos olhos. Vejo tantas pessoas trancafiadas em si mesmas. Há um grande espaço dentro delas. E há um grande medo também. Sei que algumas são egoístas demais para se deixar encontrar por alguém.
Permaneço sedento.
Depois que o nó se desfez, vivo tentando proteger o que restou de mim. Sei que sou aquele mesmo menino que constantemente levava a mão ao coração. Sempre fiz isso. Alguém pode achar incomum. Uma vez até me perguntaram a respeito, e eu respondi que é apenas para tentar proteger os sentimentos fervilhantes em meu peito. De alguma forma tento segurá-los em mim. Não, eu não quero que nenhum escape. Não quero ser tão só. Quero a companhia de cada sensação, cada emoção, cada dor. Minhas mãos são tão frágeis e meus braços tão débeis. De repente tudo escorre entre meus dedos. O chão frio recebe a quentura do meu sentir. Vazio. Abismo. Preciso chorar nossas ausências. Desaprendi.
E agora?
Agora. Estou preso aqui. Tornei-me o cárcere de mim. Vivo tentando, inutilmente, encostar minha solidão na tua. No entanto, você me parece ser tão inacessível. E eu pareço tão confuso e tão perdido dentro desse buraco que cavei com minhas próprias mãos na ânsia de me encontrar. Só me perdi. Então... por favor... encosta tua solidão na minha. E seremos sós, juntos.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ainda te amo?


Estou repleto de você. Estou inundando. Estou transbordando. Minhas bordas não me suportam mais. Não caibo em mim e isso não é mais um clichê de mulherzinha. Estou aos pedaços que é para somente te lembrar que você precisa me juntar quando chegar. Não sei mais o que é estar inteiro. Esqueci a sensação. Esqueci tanta coisa. Esqueci meus maiores temores. Você bem sabe o quanto temo braços cruzados e corações vazios de amor. Estou inebriado mesmo quando você está ausente. Você deixa rastros em mim. Você está aqui. Sim, eu posso te sentir mais próximo. É tudo ilusão. Você nunca se foi. Nem eu me fui daquela cidadezinha de nome estranho e poucos habitantes. Nunca nos deixamos. Ainda estamos sentados no banquinho de madeira e naquela noite de lua cheia. Estamos um ao lado do outro. Nossas faces se voltam para o céu. Mas o céu está em teus olhos, meu amor. Não, eu nunca te chamei de amor e nunca pensei na possibilidade de você ser meu. Mas agora posso. Aqui eu posso tudo, minha lua. Estamos tão sós ali. Estou em chamas. É sempre assim. Tua ausência faz de mim gelo. Tua presença faz de mim fogo. Mas não quero que minhas chamas de te queimem. Estou me consumindo a cada vez que você me olha. Deixa que eu me derrame sobre você. Seja o meu (a)mar. Sou um pequeno rio. Desajeitado e perdido rio tentando desaguar em algum canto. Não! Eu não quero desaguar em qualquer lugar. Quero desaguar em você. Ainda não encontrei o caminho que me leva até o teu mar. Ainda estou perdido. Ainda estou sozinho mesmo estando ao teu lado por tanto tempo. Tempo... ah! o tempo não passa dentro de mim. Há um contraste nisso tudo. As horas do lado de fora insistem em passar, em voar, em se perder e em me fazer ficar perdido. Quero me agarrar na tua presença, mas logo vem a tua ausência fazendo as minhas chamas se dissiparem no ar. Sou gelo. E espero que os teus (a)braços venham me derreter inteiro. Voltarei a ser rio a querer encontrar o mar. Posso voltar a ser fogo se você assim quiser. Apenas me deixe ser. Não seja tão inacessível. Não esqueça das vezes que você me roubou, que você me levou mesmo sem querer. Não se assuste. Estou aqui mais uma vez dizendo que ainda espero por você. Espero. No meio do meu nada, no meio do meu vazio, no meio desse buraco no meu peito que está prestes a me engolir. Espero. Não sei se você chegará. Estou tão confuso. Estou me atropelando. Talvez eu esteja te afastando com toda essa minha intensidade louca e absurda. Você está aqui ao meu lado, mas há um abismo, insuportavelmente fundo, entre nós. Espero... mesmo pensando que não há ponte que nos aproxime outra vez. Não importa mais nada. Apenas me basta a certeza de que estou inundado de você. Não sei como isso pode acontecer mesmo com a distância que há entre nós. Fiz nó em você. Será isso? Vem agora ao meu pensamento que o impossível talvez seja sinônimo do amor.
Eu ainda te amo?